segunda-feira, fevereiro 16, 2009



Quarta feira, 14 de janeiro de 2009, 7 horas de uma manhã ainda fria, dia de início do Festival Internacional de verão de Brasília. No pátio da escola de música, alguns músicos já esquentavam as notas do hino nacional que seria executado na abertura oficial do evento. Pedia um pão de queijo quando avistei uma garota descendo de um táxi com uma pequena mala, tímida, mas com uma firmeza no olhar, estranhamente bateu palmas e fez estalidos nos dedos e só então começou a andar guiada somente por uma bengala que se estendia a um toque; para minha admiração ela acabara de reconhecer o ambiente somente pela acústica, ela era deficiente visual.
Sentou em um banco próximo e sacando uma flauta doce da mochila, ela começou a tocar o início de Gabriel’s oboé do Enio Moricone. Terminei o café e me dirigi ao telefone público, passando pelo lado esquerdo da moça, quando subitamente a música cessa e ouço um longo e grave: bom dia! Ela havia me cumprimentado quando passei ao seu lado e ainda estático, me perguntava como, se estava sozinho, não falava e não emitia nenhum som ao andar ou por conta do calçado pensei e com voz embargada em um silêncio que já beirava o mal tom respondi ainda meio perplexo. Era meu primeiro contato com ela.
Poucos minutos de conversa foram suficientes para Marcela me contar que estava lá a contragosto da família, que a julgava frágil demais pra se deslocar de uma cidade a outra sozinha. Em pouco tempo pude notar a força de vontade que se concentrava naquele ser, pois apesar do Festival oferecer musicologia em braile, o espaço físico não possuía o mínimo de acessibilidade, razão que não a desanimou.


Marcela é uma paulistana de 25 anos, deficiente visual desde a infância, mas que nem por isso faz do problema um obstáculo. Percussão, flauta doce, piano e canto são só algumas atividades que ela exerce além de ser professora. Viajou sozinha de Sampa pra Bsb somente com o endereço anotado em um pedaço de papel e chegou ao Festival. Foi a sua primeira viagem sozinha, a contragosto da família;

Motivado por isto, eu juntamente com alguns amigos fomos cobrar à direção do evento respostas, pois, Marcela era tão igual quanto aos outros professores que estavam ali pra aprender tal módulo, porém o mínimo que deveriam fazer era oferecer uma bolsa, uma vez que houve equívocos na recepção de deficientes. Em aproximadamente uma hora de conversa conseguimos.
Professora de inicialização musical desde os 15 anos, Marcela toca com grande habilidade flauta doce, percussão, violão, piano e canto. E foi com grande êxito que a mesma foi aprovada no último vestibular de música da Unicamp obtendo o 7° lugar, o que a fará sair da grande São Paulo para morar na cidade de Campinas no segundo semestre de 2009.
Só em dois momentos extremos vi a Marcela reclamar: da comida do festival que tinha seus altos e baixos e de tristeza quando sua mãe se recusou a falar com ela ao telefone por ter contrariado seus conselhos.
No encerramento do curso Marcela não cantou, simplesmente emocionou a todos com Chega de saudade com melodia de Tom e letra de Vinícius, e fez muita gente chorar com a despedida de mais um festival.
Assim terminava mais uma aula que a vida acabava de me dar...

3 comentários:

diogo disse...

Impressionante o poder da vontade em fazer-nos ter força pra superarmos barreiras. Os obstáculos podem se apresentar de várias formas, desde a falta de acessibilidade(uma rampa, calçadas niveladas, enfim) a falta de confiança de que podemos superá-los, excesso de zelo a que à vezes nos são prestados por pesoas que nos amam e por isso querem nos preservar, não obstante da necessidade de construção do nosso auto-conhecimento.
Marcela, não a conheço, mas fico feliz pelo esforço de sua superação em um mundo em que muitos se acomodam. Muitas vitórias pra ti!!!

Saulo Galtri disse...

valew
Diogo

Ana Victória disse...

De fato todos aprendemos muito com Marcela, eu particularmente aprendi a viver muito melhor. É uma felicidade muito grande ver a força de vontade, a perseverança, e mesmo com todas as dificuldades A ALEGRIA de nossa amiga Marcela! Certamente é uma pessoa que merece muito mais que nossos aplausos!!!
Além disso gostaria de ressaltar toda paciência, dedicação, amizade, disposição e muitas outras coisa de vc Saulo que são qualidades muito dificeis hoje em dia q cada um se procupa com seu próprio "umbigo". Apesar de nossas divergências de alguns momentos,enfim vc com certeza é um cara que considero, uma pessoa relevante!!! Um grande abraço!!! Com carinho. Victória Pitts